30.10.09

oãmartnoc

Gabriel era sujeito de cabeça que se sabia prática.

Pois que ainda em caráter de pequeno aprendeu que o trânsito tinha sentido. A experiência ensinou e ele aprendeu a atravessar a rua olhando para o sentido que os carros vinham.

morreu atropelado na contramão

21.10.09

Momento diário - Liniers

Eu sempre fui uma criança empolgada. É de natureza. Vejo algo que me emociona, ou que me impressiona muito, e quero correr e gritar pros quatro pontos cardeais. Me sinto extremamente responsável em dividir aquilo, o maravilhoso, o genial, com os outros. É como se achasse um absurdo e falta de consideração com aqueles que amo alijá-los de algo tão importante. Tipo um revolucionário exigindo melhor distribuição de renda.

No entanto, no decorrer da idade a gente vai percebendo que aquilo que nos derrete nem sempre os derrete... Por vezes as diferenças de gosto são tão grandes que o espetacular se torna entediante para o outro. Me confesso desanimado com o fato, e por fim acabei aprendendo a guardar essas micro explosões dentro de mim. Acho que isso me ajuda a compreender as religiões que pregam a conversão dos mundanos. Diferente deles escondo meus gritos empolgados com um sorriso tímido no rosto.Vez ou outro acho alguém com espírito parecido comigo, em sincronia em alguns pontos, e me permito, com voz abafada partilhar daquilo que considero importante. É raro, mas acontece.

Mesmo assim é difícil a empolgação ser minimamente equivalente e assim, no meio desse mundo de gente grande com vozes aveludadas, me sinto o escritor e aviador Antoine de Saint-Exúpery. O autor do Pequeno Príncipe tinha dificuldades em encontrar alguém que não confundisse desenho de chapéu com cobra engolindo elefante *.

Mas hoje vou abrir uma pequena excessão e vou espalhar algo que considero brilhante. Que se dane se você não se importar, hoje me permitirei o moleque de cabeleira vermelha que detestava pentear o cabelo e que saia todo destrambelhado tropeçando por ai...

Conheci esse argentino há bem pouco tempo e já sou apaixonado pelo seu trabalho. Meu objetivo na vida é atingir em qualquer coisa que faça o que ele é capaz com suas tiras.



O nome desse artista é Liniers e ele já tem dois albuns traduzidos para a língua tupiniquim. Além disso, pra quem não tiver muito problema com o idioma espanhol, como eu tenho, vale dar uma olhada no seu blog http://autoliniers.blogspot.com/. Atualizado diariamente o desenhista publica uma tira por dia.**

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*Criou-se um preconceito sobre "O Pequeno Príncipe" desde que modelos e top models o apontavam como livro preferido. Eu arrisco em dizer que se essas moças lêem mesmo, e compreendem, o livro não podem ter a cabeça tão vazia como o preconceito dita.

**Apesar de ter problema com o espanhol eu me dobro todo pra conseguir ler suas tiras. É impressionante, mas já tenho percebido evoluir minha compreensão na língua latina..

18.9.09

As três escolhas de felício dos prazeres

Era um rosto que carregava uma expressão de dor sem fim. O sofrimento e a miséria já deixavam marcas bem antes da vida o carregar de tal fardo. O mundo, que era aquilo tudo que saia dos domínios do corpo já estava destinado a assombrá-lo desde antes de entender o que era ser aquilo que ficava do lado de dentro daqueles olhos grandes e sombracelhas arqueadas.

Seu nome era uma daquelas grande irônias da vida, Felício dos Prazeres era tudo menos feliz. Era possível dissertar e criar categorias diversas pro sofrimento só de analisar superficialmente a vida do pobre coitado, mas não dava pra escrever nem uma linha sobre prazer.

felício, morava com mãe e dois irmãos. Metade pra não ouvir mais a mãe reclamar que não fazia nada e metade porque era o que se esperava que fizesse arrumou um serviço como favor de vereador importante. Na verdade nem tão importante assim, se chamava Juca da pipoqueira. O nome do emprego dentro de felício era varredor de chão, mas pra fora preferia o que considerava mais pomposo e de importância: Auxiliar de Serviços Gerais.

-ôxiliar de serviço gerais, ôxiliar de serviço gerais. mas o que é que isso faz, ô felício?
-poquin de tudo, não disse.

E assim, sem nenhuma maiuscula, tratava de mudar de assunto

Não era sujeito de traquejo social, era daqueles que quando tinha folga não saia do boteco da esquina, metade porque era o se esperava que fizesse e metade por que ali era a única forma que conhecia de fugir da própria vida.

Sem ninguém que pudesse chamar amigo, felício ria de todas as piadas que faziam do seu rosto triste quase cômico, metade por que não entendia o que diziam e metade por que era o que se esperava que fizesse. Não se podia dizer que era uma pessoa má, mas também não poderia se dizer que era bom. O mais justo, se é que se tem justiça no que se proseia cá, era dizer que o sujeito era nada.

Numa dessas irônias da vida, eis que aparece na vida do moço Maria Aparecida. Diferente de felício a moça não tinha sido marcada pra tristeza na barriga da mãe, pois ganhou um olhar infeliz só quando descobriu que era por falta de vaga de princesa que acabou por plebéia. Não gostava de felício, mas aceitou casar com ele mesmo assim. E ele casou com ela metade porque queria sair de sua casa e a outra metade porque era o que esperava que fizesse.

Foi um dia desses qualquer, que acontecem todo dia, que felício pela primeira vez na vida cismou ter direito de reclamar da dor de dente que sempre tivera, sabe se lá Deus porque, no trabalho. O chefe, depois de argumentar com aquela razão simples e sem sentido de quem acha que tá sempre sendo passado a perna com um "mas você nunca passou mal antes", viu que era por bem liberar o sujeito mais cedo.

Pois que só assim que felício descobrira a sujeira que vinha acontecendo na sua própria cama há alguns meses. Pois que a família da Maria vinha acobertando a sem vergonhice da moça que arrastava, vejam só, Juca da pipoqueira todos os dias, depois do almoço para a própria cama. Se a família da moça sabia, era porque desde que felício e Maria tinham se casado, moravam em puxadinho.

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Felício naquela hora se decidiu sujeito. Batendo em tudo que era tudo que via pela frente, enquanto o Juca confundia ziper com botão, entrou no quarto com uma faca de pão e desceu o braço no passivo. Era sangue em cama, lençol e travesseiro.

Foi encontrado pela polícia no bar todo ensanguentado. Ninguém ria dele.


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Felício na hora se decidiu sujeito. Como se nada estivesse acontecendo, passou sem quase fazer barulho, coisa que sabia fazer muito bem, mergulhou as roupas dentro da mala e foi se embora catar um dentista e uma vida que fosse pra si mesmo, exatamente nesta ordem.

Diz-se por ai que virou pastor cristão, que vem arrebanhando ovelhas pra Igreja do Santo Milagre do Amanhecer. O vereador está no seu terceiro mandato, com seus três filhos e sua esposa, dona Suelly das Dores. Da Maria Aparecida não se sabe mais.


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felício olhou aquilo tudo e ficou sem saber o que fazer. Em um dos seus primeiros momentos de clareza entendeu que aquilo era culpa sua. Pois que não deveria ter chegado em horário que não se esperava que chegasse.

Foi pro boteco da esquina e até hoje fica rindo das piadas sobre si mesmo. Metade porque não as entendia e a outra metade porque só assim esquecia de si mesmo.

Eu tinha começado esse texto há muito tempo mesmo. E agora catando uns escritos mais antigos decidi, por bem, terminá-lo. Não sei se atinjo meu objetivo inicial com ele, mas fico feliz por ter conseguido terminar um texto mais antigo abandonado.
Não são com todos que consigo fazer isso.
=)

14.8.09

Zuleica Maria era infeliz

Feia como que um absurdo, Zuleica Maria explodia palavrões pra fora. Eram impropérios que fugiam, escoavam, escorriam por descaber de dentro da boca. Como que juiza-Deus do que era feio ou belo se danava a recorrer explicações diversas pra afirmar, com a popular ciência de falar mal de algo para se fazer de entendido, que Juju Morazinho nem tinha tamanha belezura como que o digníssimo quero-quero pedro martins.

E enchia o ar com qualquer raivocidade que conseguia tirar de dentro do seu peito enquanto todos aqueles ouvidos vizinhos, já aborrecidos com tantas formas diferentes de se falar a mesma coisa, tentavam captar qualquer outro ruído que fosse.

Tarefa mais impossível não havia e isso era tão fato que nem cabia em jornal de tão pouca importância que tinha.

Era fato, mas não era fatídico.

Fato também era que Zuleica Maria não era cabível em muitas coisas. Além de feia e mal educada. Ela guardava duas coincidências com a família dos suínos. Fazia pouco caso de sabonetes, perfumes, pastas de dentes e afins, e tinha um corpo que só por ser metido a besta chamarei de king sized.

Como que agradescendo pelo possível fato de não ter espelho em casa. Zuleica Maria só fazia esquentar as orelhas da feliz Juju Morazinho. Por mais que a desprovida de qualquer beleza esbravejasse, gritasse, se indignasse Juju Morazinho e pedro martins ficavam cada vez mais felizes com o casório que ia chegando.

Zuleica Maria tinha aprendido há muito tempo a desdenhar do sorriso alheio. Descobriu nessa arte uma maneira de substituir o gosto de vitória que nunca tinha conhecido. Não era como que quisesse Pedro Martins para si mesma. Sabia que não o teria, a pobre nunca tinha feito do coração de outrem presa.

A infeliz não o queria pra ninguém.

No fundo, como qualquer pessoa comum, ela também queria um tantinho só que fosse de poesia na sua vida, mas Zuleica Maria não era religiosa o suficiente pra acreditar no que não pudesse ver.



Essa é meu segundo texto com uma Maria como personagem. Já escrevi sobre a Maria que não era nem feia e nem bonita e agora escrevo sobre a Maria feia. Me empolguei em escrever também futuramente sobre uma Maria bonita. Quem sabe assim fecho a trilogia das Marias.
=)

Pra quem quiser conhecer a outra Maria:
http://empirismoemprosa.blogspot.com/2007/03/ana-maria-da-costa-da-silva.html

30.7.09

Entre pontos e sem vírgulas

.a vida não parou pouquinho para sarar

ainda era quinta feira
o cotovelo se rompe
coloca uma tala

diz adeus para o vento
manda beijos para o nada
e deseja boa sorte para o incerto

era sonho
logo quando se acorda esquece.

24.7.09

Sobre si mesmo

O homem criou casas em volta de si,
O homem vestiu roupas em seu corpo,

O homem olhou para aquilo e não dizia nada sobre si mesmo.

O homem abriu o corpo com bisturi,
O homem descreveu os seus sonhos,
O homem foi para bem longe,

E mesmo assim não fazia a mínima idéia do que poderia ser.

O homem então criou nomes para que pudesse ser chamado de tudo aquilo que não era.
E desistiu de si mesmo.

A história sobre esse texto é estranha. Fui começar a ler Coraline e peguei no sono. Tive um sonho em que procurava algo ou alguém sem ter certeza se inventava ou lia aquilo que acontecia e nesse ponto percebi que não importava se estava inventando ou lendo, a história estava acontecendo. Depois fui sendo perseguido por uma criatura com botões no lugar de olhos e acordei de um susto.

Esse texto apareceu na minha cabeça assim que despertei, provavelmente por ter sido tocado por um trecho do livro onde Coraline e o gato debatem sobre a importância de nomes. Fiquei meio que estático enquanto não registrei isso aqui...

19.7.09

Sistematizando

- Pois então, acho que no mínimo tem que ser uma pessoa extraordinária, sabe? Não quero alguém do senso comum. Uma pessoa com opiniões simples pro que todo mundo acha complicado e que venha com um conjunto de meia dúzia de conclusões loucas pro que todo mundo acha normal, do dia a dia... Tem que ser alguém que me inspire e com quem eu possa ter as conversas mais loucas. Alguém que eu sinta necessidade de ficar conversando horas a fio e que não venha com aquela de "Sobre isso não se fala". Quero vê-la depilando a perna e até cagando, apenas por que aquilo é real. Quero alguém que seja de verdade, mas que não precise provar a sua realidade.
Por que, como o senhor deve saber, o real não é o mediocre.
Ah, também tem que ter sincronia no beijo. Sabe como é, tem que rolar carne na parada. O senhor sabe o que é sincronia no beijo?
Ah, lembrei... Também tem que rolar cumplicidade, por que a cumplicidade...

- Rapaz, o programa tem as suas regras e seu tempo será limitado. Tenho certeza que você pode entender isso

-hmmm, então eu posso dizer...

-Responda apenas: "Procuro alguém que seja sincera, carinhosa e que goste das mesmas coisas que eu."